24°C 25°C
Salvador, BA
Publicidade

Rio do Ouro: do Brasil colônia à ascensão da mineração em Jacobina

A história do Rio do Ouro é marcada, portanto, pela retomada da mineração na localidade, nos anos 1930, com a organização de garimpos ao longo do Rio Itapicuru e de seus afluentes.

21/10/2025 às 22h19
Por: Redação Fonte: Tribuna da Bahia
Compartilhe:
Rio do Ouro em Jacobina, no Piemonte da Chapada Diamantna (BA) | Foto: Augusto Urgente
Rio do Ouro em Jacobina, no Piemonte da Chapada Diamantna (BA) | Foto: Augusto Urgente

O Rio do Ouro, que corta o município de Jacobina, no norte da Bahia, carrega no nome uma herança diretamente ligada à mineração. Desde o século XVII, suas margens serviram de cenário para a extração artesanal do ouro, atividade que impulsionou o povoamento da região e moldou a identidade local.

Como explica o geólogo Carlos Barbosa, a história de Jacobina está ligada à interiorização do Brasil. Consultor, com 40 anos de experiência na indústria de mineração e pesquisa de ouro, o especialista aponta que esse processo tem relação com a ocupação portuguesa na costa e o movimento rumo ao interior, feito pelos bandeirantes.

“Eles entraram no país procurando ouro e pedras preciosas, para gerar receita para Portugal e garantir a posse do país. Existem várias histórias no país de descoberta de metal e tomada de território”, revela, citando como exemplos, os municípios baianos de Rio de Contas e Jacobina, este último, cuja descoberta do ouro de seu no século XVII.

De acordo com registros históricos, as primeiras prospecções auríferas nas serras de Jacobina começaram ainda no período colonial, atraindo bandeirantes e garimpeiros em busca do metal precioso. Dados do livro do “Ouro na Bahia: metalogênese e potencial exploratório”, publicação da Companhia Baiana de Produção Mineral (CBPM), de autoria do geólogo Dr. João Batista Guimarães Teixeira, apontam que no referido século, “a produção de ouro na Bahia esteve concentrada na Província da Serra de Jacobina, no Distrito de Correntina, localizado na região do “Além São Francisco” e no Distrito de Rio de Contas, posicionado no extremo sul da Província da Chapada Diamantina Ocidental”.

Conforme Barbosa, a história remonta à descoberta do metal e a história revela que isso se dava a partir dos rios, onde a lavra é mais fácil, por estar desagregado. E, como conta o geólogo, o ouro foi muito importante para a região, tanto que Jacobina se tornou estratégica para Portugal diante da sua produção, chegando a ter uma casa de fundição.

Na publicação da CBPM, o início da produção do ouro é creditado ao ano de 1701, às margens do Rio Itapicuru-Mirim. Com o crescimento da produção, a “Coroa Portuguesa elevou o povoado à categoria de vila com o nome de Vila de Santo Antônio de Jacobina”, aponta o autor do livro.

E a importância de Jacobina para a história do país se dá, ainda, pela instalação da casa de fundição, responsável por fiscalizar a extração e recolher os impostos destinados à Coroa Portuguesa. “O rei de Portugal estabelecia a produção de ouro para manter o recolhimento de impostos, o quinto”, revela o geólogo Carlos Barbosa, acrescentando que a expressão “quinto dos infernos” se origina deste contexto histórico. 

“Naquela época o imposto com base no “quinto” gerava muita sonegação e foi substituído pela “finta”. Em 1719 para tornar mais eficiente o controle tributário, o governo português, proibiu a circulação do ouro em pó ou em pepitas. Em 1726 o mesmo determinou que se estabelecessem “Casas de Fundição” nas duas vilas, Jacobina e Rio de Contas. Todo o ouro agora era obrigado a ser derretido e transformado em barras. Ao receber o ouro, as Casa de Fundição já retiravam a parte que correspondia à parte do rei. O restante era devolvido à circulação com um selo que comprovava o pagamento do imposto”, detalha a obra publicada pela CBPM.

Pesquisas das universidades federais da Bahia e de Pernambuco referem-se ao fato de que a “Companhia das Minas de Jacobina” obteve permissão por meio de decretos imperiais para explorar ouro e outros minerais na comarca, nos anos de 1884 e 1887. Portanto, no final do século XIX, a atividade ganhou caráter empresarial, mas teve as suas operações encerradas em 1897.

A história do Rio do Ouro é marcada, portanto, pela retomada da mineração na localidade, nos anos 1930, com a organização de garimpos ao longo do Rio Itapicuru e de seus afluentes. O Rio do Ouro era usado tanto para lavagem do minério quanto para o abastecimento da população, consolidando sua importância social e econômica.

Barbosa ainda destaca que Jacobina conquistou importância para a Coroa Portuguesa, a ponto de ter uma estrada real, que ligava áreas importantes ao centro do governo, no Rio de Janeiro. Era através dela que o rei controlava o fluxo de pessoas e o recolhimento de impostos.

Outros fatos históricos contribuem para a evidência do município baiano na trilha da evolução da atividade mineral nacional. Informações publicadas no portal do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) traçam uma linha do tempo do desenvolvimento do setor na região, destacando a sucessão da “Companhia Minas de Jacobina” pela “Mineração de Ouro de Jacobina”, em 1947, fato que posteriormente foi somado à participação estrangeira, marcando o início de um novo ciclo de exploração industrial.

Nas décadas seguintes, empresas nacionais e internacionais realizaram mapeamentos geológicos e modernizaram o processo de extração. A partir dos anos 1980, Jacobina passou a integrar o grupo dos principais polos auríferos do país.

Atualmente, a extração é conduzida pela Pan American Silver, que assumiu o controle da Jacobina Mineração em 2023. A empresa mantém operações subterrâneas e investimentos em tecnologia e segurança, o que garantiu recorde de produção nos últimos anos.

De acordo com o informativo Desempenho da Mineração Baiana 2025, ano base 2024, divulgado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), a Produção Mineral Baiana Comercializada (PMBC) cresceu 4,5% no ano passado, em relação ao ano anterior, totalizando R$ 10,18 bilhões, resultado da comercialização de 47 bens minerais, extraídos em 200 municípios por 473 produtores.

O levantamento, que conta com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), destaca o ouro como principal bem mineral comercializado no estado, responsável por R$ 3,81 bilhões em 2024, 27% superior aos resultados do ano anterior. E quanto à participação dos principais mineradores na PMBC, a Jacobina Mineração e Comércio Ltda. e sua produção de ouro, se destaca com maior percentual dentre todas, com 23% do total.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários